quinta-feira, 18 de junho de 2015

Não Morra Alice

Por favor,
Não morra Alice!

Lembre-se de resistir
Como fazia com tua mãe
Quando não queria acompanhá-la
No trabalho

Não se esqueça de como era
Antes de você querer pintar o cabelo
E de antes de fazê-lo
Pensa que as escolhas,
Como no caso das cores,
é uma questão de gosto pelo risco, pelo traço, pelos tons.
Sabe que nem sempre o resultado é o esperado.
Nem sempre harmonioso.
Mas sempre se pode mudar a tonalidade,
Se arriscar a um barulho novo.
Se não raspar o cabelo
Ou se ele não cair em definitivo.
E se não perder de vez a cabeça Alice...

Bem, reflita sobre o fato de que se cortar
O pescoço ou os pulsos
Não poderá mais variar as cores
Prevalecerá o vermelho empobrecido
Azulando ao coagular
Até se tornar,
Com os efeitos tempo,
Um terrível verde musgo.

Alice, não perca a cabeça, dessa vez!
Afinal, ela carrega seus lindos aneis dourados.
Suas alianças fúteis e fundamentais
Com este universo confuso e mal elaborado
Com este experimentar,
Que não é ideal
Nem tão belo quanto já disseram.

Quando se sentir só, Alice,
Se for de solidão que morre,
Lembre-se das suas duas bonecas
De face quebrada,
Cabelos compridos,
Anelados e tão negros
Que estimulavam a sua servidão.
Sou como as tais,
Não faço sentido sem ti.

(Com)Paixão, Alice!

Não morra Alice,
Que a falta da sua doçura
Me fará muito amarga.
E eu não terei mais ninguém para amar.
Os outros não lhe são iguais,
Não merecem meu penar.
Se morrer eu serei tão pior do que sou,
Não haverá ninguém que eu compreenda,
Que eu aceite com seus defeitos e delírios.
Ninguém que me faça calar
Com uma bronca,
Com um único movimento de pálpebras,
Com um simples suspiro,
Com uma sutil ameaça de sorriso.

Se morrer Alice,
Eu não terei por quem...
Porque viver.
Se quer me matar,
Então se mate.
Se não...
Sobreviva, resista,
Crie asas
E saia desse lindo abismo que te clama.

Encontre algum sentido
Nos signos de hoje,
Como encontrou naquele pijama,
Camiseta branca e calça de florzinhas cinzas.
Fez dele sua armadura contra pesadelos.
Deve haver alguma arma
Algum catre onde possa repousar
E pensar melhor sobre sua (in)decisão,
Uma arma capaz de te auxiliar contra
Ou mesmo te livrar dos teus medos
Ou dessa sua débil coragem.

Alice,
A tua espada está embainhada
Mas está em ti,
A use, se defenda, não se entregue ao (des)temor.
Eu sei que ele te seduz,
Que te olha nos olhos e te convida a ir...
Não vá com ele Alice,
Apesar de constante ele não é boa companhia,
Não será leal a ti.
Fique se estou consigo.

Não tenho muitos argumentos para te convencer...
Então me resta o choro, o lamento, a súplica...

Não se iluda, Alice, seu pai não estará na sua partida
Ele saiu muito antes, não poderá te receber...
Posso dizer que sua mãe sentirá sua falta.
Seus amigos, mesmo um tanto indiferentes, querem-te aqui.
E como pode trair teus inimigos dessa forma tão brutal...
A quem odiarão, de quem falarão mal,
A quem acusarão de arrogante, metida a besta, turrona e radical?

Eu sei Alice, que não morre de tristeza,
Nem de (des)ilusão...
O que te mata é o nada,
É a insignificância de tudo,
O tédio com o (des)semelhante...

Eu sei...
Como são chatos os legais,
Ignorantes os mais sabidos,
Estúpidos os meigos,
Autoritários os justos,
Insubmissos os, ditos, cristãos,
Sei tão bem Alice
O quão violentos e crueis são os mansos de coração!

Pensando bem melhor sobre consumar o fato...
Morra Alice,
Eu te acompanho
Morrer pode não ser a solução,
Mas solução não há.
As alternativas:
Vive-se por nada,
E por nada se morrerá.

Eu morro por si Alice...
Nisso algum sentido há.
Você vale tanto a vida, quanto a morte.
Vou consigo, se quer tanto ir,
Vou para que não saia e não chegue só.
Se houver castigo por fugir a regra, adiantar o tempo...
Te enlaço em mãos, nas minhas,
E nos será paraíso a dor.

Um comentário:

  1. "Vive-se por nada,
    E por nada se morrerá."

    Não sei dizer como essa poesia me tocou... alucinante;

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