sexta-feira, 31 de julho de 2015

Penúria

(Imagem do filme - Persona - Igmar Bergman - 1966)


Fazendo-me correr o risco de sujeição
A inópia
Neste meio
Entre noite e amanhecer
Devido a falta de viveza
Fez que
Sem-mando
Mãos me afligissem
E atormentassem
Com a iracibilidade necessária
Para remir a transgressão da tua ausência

Atormentou-me
Ser bastante à minha volúpia
Deixar-me
Na boca de tua densidade fantasmática
Numa apreciação irrefletida
Sumir dentro de tua não-presença
Acercada das milhares de particularidades do teu todo
E meu corpo
Teu odre
Melro-Azul

A pele que me veste
Nos instantes que se seguem
Encrespada
Riça e eriça a tua
E nos vãos que se abrem
E me invadem
Graça aquele fogo teu

(En)cerra-me
O desprezo pela realidade
O recreio crepuscular
Torna-se o que existe de fato
Acontece
O todo ganha forma
Figura e existência
Neste lugar agreste
Afastado das provações
Nesta floresta interior
Sou o pronome tônico do teu verbo
Palavra que substitui
E se faz corpo
Encarnado

Feito estação
No entre
Um sol afastado do equador
Agora em seus planos
Perpétuo inverno em chamas
Cujas fuligens desse persistente suplício
Que me lavra e devora
Causa consequente
Dos primeiros e últimos impulsos
Segue-me pelos dias

Os resquícios
Esse vapor alcoólico
Que me sobe à cabeça
E reascende aquele fogo
Que há
Penetra-me os sentidos
Entorpece meus pensamentos
Embriaga os teus nãos
Nas minhas mãos
Força-me a gozos
E a delírios enlouquecedores
Ao desejo e ao prazer
Até a morte

Nas brumas desse clímax
Aparece
As tuas planícies arenosas
Os teus lagos
Encontro-me
Na imagem invertida
Refletida nos teus espaços distantes
No teu espelho neles
Na miragem estou
Nos pontos desenhados da tua forma
Onde soo como uma pausa longa dos teus medos

Nesse engano dos sentidos
Que se afigura 
O que é
Impedido de ser
A esperança (ir)realizável
Que faz soar aos nossos ouvidos 
Acordados
O sons produzidos na alma
Emitidos pela boca
Modificados pelos cantos que lhes impôs
Pelos ruídos das palavras
Fraseadas falsamente
Sentenciadas pelo preconceito
Entre as quais
O feitio do não
É oblíquo a um sim
Habituado a dissimulação

Na íntegra
A visagem
O resto dos gestos
As ruínas do nosso lugar comum 
De partida
Respondem ao toque
Ao prazer suave e prolongado da espera
Por meus dedos cheios de mãos
Repletos de auxílio e socorro
Por meus poros
Superfície densa
Pesando sobre a veste do teu ventre
Minha língua 
Passeando conforme as linhas 
Entre teus joelhos e quadril
Para alcançar teu intrínseco apetite
Teu desejo imoderado
Que rejeita
Escandalosamente
A regra
Embora a obedeça

A minha fala
Nesta hora indefinida
Alcança e acaricia
Teus temores
Cada palavra dita
Ou não-dita
Em murmúrios 
Ou suspiros
É indício do desejo veemente
Que nos saúda e perpetua
Que tudo intenciona
Minhas palavras comem
Além de teus medos
Teus seios
Tuas pernas
Teus relevos e cavidades
Cada uma de tuas partes
O todo
Alimenta minhas vontades famintas
De saciar o querer

Minha boca
E lábios
Saboreiam tuas mãos erguidas
Sob as minhas
As partes do teu todo 
Sobre e sob mim
As curvas e reentrâncias do teu corpo
Agora a(l)mado
Trêmulo
Em ebulição
Entregue e confiado ao meu

Abismada na liberdade do momento
De sonho e realização
O que não foi semeado ou cultivado
O que não teve cuidados especiais
Invade-me e convulsiona-me
Naufrago nas depressões
Nos lugares dos teus espaços
Nas linhas a-riscas da tua pele
(Re)conheço os oceanos
E os rios que se derramam
De ti em mim
Que me salgam e adoçam
Mesmo a grandes distâncias

Sou massa de água contínua
Que se despenha de qualquer altura
A disposição do teu terreno
Modulada pela tua repetição
Sempre nova
Até o termo

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