domingo, 9 de agosto de 2015

O Morto Mais Vivo

(By Fernando Scherer)

A tua morte cessou todas as outras
Nada morreu depois de ti
Tudo é eterno agora
Mesmo tua morte
Você não cessa de morrer
Morre o tempo todo
Em todos os mortos
É teu corpo que enterram
Não vou mais a velórios
Ou os teria que chorar
E não há lágrimas para eles
Para morto algum depois de ti
Se os choro, quando os lamento
É por tua pessoa ausente
É por teu corpo comido, fétido, apodrecido...
É você que derrama solidão, saudades e lágrimas em mim
Quando estou encantoada
É a ti, a tua perda, que lamento
Mas, morreu tantas vezes que (quase) me acostumo ao luto
Parece ter morrido parte de mim em ti
Ou revivido tua parte em mim
Não sei como acontece
Morro sempre no mesmo grito
Ao te ver tombado
Vazado e ferido
Pelo que se conhece por homens
Devorado pelo rio
E pelo que nele habita
Nenhum outro morto me aterroriza tanto
Porque me persegue?
Porque não morre mesmo?
Porque não me deixa viva, viver?
Estou exausta do teu fim trágico a se repetir...
Morre, por D’us!
Não insista neste absurdo de não viver!
Permita-me, eu mesma, ser.


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