domingo, 23 de agosto de 2015

Sentença

(Imagem vista em: www.aviagemdosargonautas.net)


Os outros tem o dom da palavra
Enquanto se opõe ao dito
Obriga modos
Regras
Pensamentos
Ações
A se adaptarem
Segura para si o tempo
Avigora a oração
Mas, não lhe dá ouvidos
Se faz obedecer
Desavinda
Com todos
Torna qualquer um néscio
Verte-se em realidade
É não-ser
Sempre inoportuno
Promessa mútua
Aceite irrevogável
Igual em importância
Porém desconhecida
Se deixa sentir
Mas, não se dá a conhecer
Descortês
Não há em ti uma resposta
Nenhuma resposta
Não existem em ti motivos
Masjestática
Seus Nós são contrários 
Sem luxo ou orgulho
Não nos é permitido prescindir de ti
Desdenha a razão aparente
Que tenta encobrir 
Seu verdadeiro e óbvio motivo
Os pretextos
Vivemos deles
Recusa-se a compartilhar o que é
Com os próximos
E os distantes
Zomba dos natais
Dos dias
Anos
Dessa série ininterrupta e eterna de instantes
Com as tuas próprias unidades de medida
Reduz tudo que toca a passado
Todos os fatos e ações a narrativas
Por vezes silenciadas 
A vida decorre para te alcançar
É sempre generosa para ti
Ela se oferece
Com todos os seus caminhos
Os que desejamos
Os que devemos
Os que não queremos
Ou não...
Seu desejo traça nossos mapas
Seus deveres 
Constroem nossos muros
E definem os limites
Das linhas planeadas
E daquelas percorridas
A cada uma das suas diferentes posições
A cada passo seu
Voltamos...
Tememos...
Desistimos...
Insistimos...
Não há nada de corriqueiro em ti
Nunca é trivial
Tua presença
Por mais esperada
É uma constante alteração inesperada
No andamento
Supostamente
Regular desses mistérios todos
Assustadora e inevitável
Nos seus intermédios
Realizamos
Executamos
E alcançamos alguns resultados
Tentando evita-la
Ou apressa-la
Mas, tudo o que almeja
Toma para si
Naturalmente
Não sempre...
Sua solidão não é do vazio
Não é do nada
É de não encontrar iguais
Sua solidão é do termo
Do eterno recomeço
Do fim
Sabe do sim e do não
Quando vê
Quando olha o espaço
A medida arbitrária de duração das coisas
Está consciente 
Do gosto e do sabor da existência
Talvez por isso a queira
Insaciavelmente
Ignora todo o conjunto 
De conhecimentos adquiridos
Toda prudência, sensatez ou malícia
Do ser
Não existe para ti passado ou futuro
Sempre é o seu tempo
Como o presente
Simplesmente 
Acontece
Em seus dedos
E mãos
Se os têm
Há o desconhecido
O (in)previsto
O intuído
O não experimentado
Nelas não constarão também
O loucamente desejado?
Os ventos não te levam
Sua força impede que te levem
Os ventos trazem a ti os outros
Aos quais recebe ou renuncia
Não pertence a ninguém
A nenhum outro
Nem a si mesma
Não quer que te pertençam
Não crê na vida
Crê em si
Não precisa de fé
Existe...
Se quer prática
No entanto
Trabalha 
Ao nosso ver
Por uma vida espiritual
Que não sabemos se há
Embora
A queiramos
Desejamos uma explicação
Para o fato de estar aqui
E de já não estarmos mais
Para sua não-existência certa
Em mim
E nos outros
É recusada
Relegada a tristezas
A egoísmos
Violências
E impaciências
No entanto
O fato é
Encontramo-nos
Em algum ponto desses riscos
Consigo
Quando estou comigo mesma
Olho de frente para o que
E quem é
Não sei defini-la
Juiz cruel ou justo?
Que sentencia-me
E àqueles
Todos que clamam
Não se mate...
Não me mate...
Este é o ‘mal’ 
A vida vale o sacrifício?
Pode ser bom
Quando o é
Ergo
Voarei na sua direção
Quando eu saltar
Se possível
Acomoda-me
Receba-me em ti
Segura-me em teu abismo

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