sábado, 26 de dezembro de 2015

A Primeira Vista

(Arte 13 - Invisível a Olho Nu - Visto em: www.porkanagem.com)

Nas primeiras vezes que se mostrou
não vi
Quantas vezes
sutilmente nossos corpos se esbarraram?
Quantas vezes nossos olhares se tocaram
então, atentos a outros? 
Que olhos, mãos, pés...
Que corpos inteiros nos distraíram
não nos permitiram ver face-a-face
o que queríamos e buscávamos?
Por quanto tempo e a que distância
estive do teu esqueleto sob carne e pele
harmoniosamente composto?
Quantas vezes
diante um do outro
Não nos vimos
Apesar do ver?
Não nos sentimos apesar do desejo latente
e da nossa solidão de nós?
Quantos dilemas teríamos evitado
ou editado
se nossos olhos cegos
tivessem cumprido bem
sua função de enxergar?
Ou terão sido
esses nossos cérebros danificados
por horas tristes
ocupados e distraídos que estavam
com tudo que não valeu 
a pena
e o penar
os responsáveis por esta espera finda?
Quais sereias ou botos nos encantaram
esvaziaram-nos de chão 
e nos inundaram de rio e mar
enuviaram-nos
de sonhos e pesadelos
a fazer que nos perdêssemos no (ir)real?
De quem foram as palavras 
que não nos permitiram distinguir nossas vozes
e nos ouvirmos enquanto falávamos 
dos nós em nós
para outros ouvidos?
Quais foram os gestos
que nos paralisaram
que decidiram o nosso destino
e definiram a nossa direção
atrasando esse confronto?
Se houvera tais tempos
quantas vezes teremos nós baixado a vista
enquanto o outro passava ao largo?
Quem nos chamou para si
nos distraiu
nos tomou ou abandonou no instante exato
de nos perdermos em nós?
Quais foram as dores, as flores e os odores
que fecharam as portas da nossa atenção
ao estarmos juntos e sós?
Não foram aqueles os momentos precisos
Alguma força
invisível
(des)vi(o)u-nos
Se tivesse sido ali
naquelas horas
o que teríamos perdido ou conquistado?
Sei dos nossos (des)encontros
estive onde esteve
enquanto lá estava
Se pudesse recuperar o tempo
nada quereria exceto aqueles instantes
para fazê-los outros
Por um tempo longo e breve fomos
surdos, insensíveis e descaminhados
não escutamos os sussurros nem os gritos um do outro
não percebemos os toques acidentais 
nem escutamos as gentis desculpas deles advindas
Não nos encaramos ao nos depararmos conosco pelo caminho...
Talvez tenhamos nos aborrecido, rido ou simplesmente seguido...
Encostados naquelas cópias de vida
nos papeis nada singulares
dos quais nos ocupávamos
ouvimos
pronunciado
o nome comum...
Assim de modo (quase) (in)esperado
uns olhos de mar 
Inundaram
tornaram cativas
(in)certas iris 
d'águas turvas
E não há mais canto ou encanto
margem, leito ou profundeza
capaz de mudar essa curva
onde dois corações foram enterrados
sob lágrimas
e renascem sob risos
partes de um todo uno
ouvido, visto e sentido

Um comentário:

  1. "Quantos dilemas teríamos evitado
    ou editado
    se nossos olhos cegos
    tivessem cumprido bem
    sua função de enxergar?"

    Lindo!

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