sábado, 16 de janeiro de 2016

A-Dor-O Fim

(Fotógrafa: Laura Stevens - Outro Novembro - 2014 - Visto em: www.wonderfulmachine.com)

Meus sonhos
Perderam um tanto dos seus sentidos
São menos importantes agora
Menos até que esse (des)amor
Que assola a minha humanidade
Meus sonhos não têm mais o que me oferecer
Não sabem o que semear nesse meu jardim
Quase abandonado
Devastado
A espera
No qual vaguei e tantas vezes me perdi
O mundo inteiro que sonhei se apartou de mim
Descobri que os levados dias nos fazem crescer
Agrestes
E crescendo nos damos conta de que somos míseros
Que não somos nossos
De que passamos a vida inteira em mãos alheias
Como terra fértil somos transformados em terra árida
Sedentos e cruéis
Notamos com o passar do tempo 
Que não fazemos falta
Nem para o mundo
Nem para seus habitantes
Que somos mais úteis como esterco
Do que como semeadores
Como os dias amanhecemos simplesmente para anoitecer
Tomamos posse de nós mesmos tarde demais
Quando e se acontece
Buscamo-nos nos quatro cantos
E nos esquecemos de nós 
Nos quintos dos nossos próprios infernos
Arrependemo-nos em vão
Porque o todo e suas partes
Mesmo que perdidos
É o exercício da vida
Ninguém faz ou fez tudo o que pode
Sempre se deixa algo para mais tarde
E então anoitece
Nem todo o tempo que existe
Se existe
É suficiente
Para a história que desejamos
Para respondermos aos nossos e aos alheios porquês
Quando muito nos tornamos leve lembrança
A faísca de uma memória que não nos comunica
Que não dá verdadeira notícia do que somos ou fomos
Meros ocasos do passado
Dramáticos, cômicos, trágicos e consequentes
Se perdem nessa sucessão todos os momentos corriqueiros
Que constituímos e que nos constituíram
Momentos simples e tão fundamentais
Damo-nos a todos
Mas jamais a nós mesmos
Nos sobram no fim
Os seres que os outros fizeram de nós
Sobra em nós o que é dos outros
Depois de nos enlaçarmos em tantos nós
Se perde no ser o ser eu
Depois de nos enquadrarmos nos (des)(en)cantos que nos cercam
Encantamo-nos em não ser
Depois de chover o tempo todo
Secamos em oceanos e rios derramados
Depois de não dizer quem somos para sermos aceitos
Calamos em nós tudo que pode nos perder 
Daqueles que nunca nos aceitaram
E nos perdemos de todo
Depois de não sermos e não fazermos nada honesto
Pelos outros e por nós
Sobramos sós sem nós mesmos

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