segunda-feira, 18 de julho de 2016

Terra em Causa

(Imagem vista em: www.livrossa.com - Livro: Hiroshima, de John Hersey)

O abismo está posto no corpo
Nele se encontra o alvorecer da morte
Ele é o caminho nessa terra dissoluta
Se avizinha dele
Resíduos de substâncias já espremidas
Bagaços do que foram

O balanço que os suga
Para este lugar do bom sossego
É como o movimento do caldo da cana no fogo
E do caldo corpo derramando
Não há caminho da volta de tão belo paraíso

Se volta há
É o canto da vida matando de medo
É o chão de ninguém tomado para si
É o chicote da traição
Crispando a pele e enganando os dedos

Nele o único som é do choro calado
O choro da terra desfeita em poeira
Da ausência do aplauso no circo armado
Do limão no cobre do tacho
Que lima e limpa o resíduo sobrado
É o som do começo do passo na estrada no seu fim
E do vento numa nau em desuso

O abismo no corpo a espera da vida que vaga
É como um clamor a pedir o entusiasmo da água do mar
Que suas ondas o levem
Que seu sal tempere a dor e a consuma
Que seu sol aqueça melhor tão incerta bruma

Um corpo abismado 
É agitado e levado pelos delírios da seca
No tropel do tumultuoso caminho que percorre errante
Ao sabor do mar adentro a que não se chega
E do escaldante e deserto tempo
Desejoso das águas de um rio
Que o beba

O futuro de tal caminho é um desenho desbotado
O destino incerto determinando
O dever de honra nele seguir andando
Dever que contrasta com pés gretados

Todo domínio abismal o subordina
O fardo é o fim chegado
O fim da hora que nunca termina
O fruto que ignora o próprio giro
E não percebe que do pé jaz caído

No seu quedar real imaginado
O cerca um incêndio de velas
E uma multidão de mortos por ele lastima 
Oh luz apagada
Oh livro fechado
Oh lombo de burro
Oh lugar-comum
Em tudo o melado amargo do sangue rola
Ele que já fora azulado de nobre
Agora é gangrena 
Podre
Pobre

A menina
No mundo vertendo lágrimas
Por nada 
Por não saber o caminho da volta
Por nascer viva e viver morta
Excluída de si 
Chove

De olhar estranho e alienado
O corpo no abismo entrado
Não vê mais a menina
Vê apenas que ela chove
A olhar em torno tudo
Olho no olho 
Cegado não vê passado nem futuro
Se vê perdido em ser tão

O pesadelo dela no corpo assombrado
Pulsa no sim que fora não
O que resta e a que se presta
O atraente rastro do ausente
Não há repouso nesse caminho cão

Resgatar-se à vida
Retornar sem voltar-se ao que não é
Sem beber do riacho das almas passadas
O riso solto que era presa do medo
O sangue azul que se purpurificou
As lágrimas que regaram esse enredo

Ser sinal exterior de um sacramento íntimo
É como ferver os sonhos no crisol
E soprar na gaita todos os hinos
Do tempo da ilusão
Do tempo confrangido

O velar da hora extinta
É velório do vento vingador soprado
É se por a beira de um caminho já percorrido
E dele só reter o pó
É viver no morto e morrer ensimesmado
É ser andarilho e esperar colheita
É ser o carro dos bois
É ser guia cego por cego guiado
É ensinar o que não se aprende
É excluir o já excluído

Nos limites invisíveis e inalcançáveis desse caminho
Em que mortos guiam vivos
Onde se come os insetos e não o mel
E os silêncios gritam 
De modo convincente 
Que não conseguem ver o que se abeira
Nem os vestígios bárbaros da terra em causa que grita

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