sábado, 20 de agosto de 2016

Da Raiz às Folhas

(Richard Stainthorp - Sculpture: Arbre)

Os elementos que me constituem
Que compõem meus temas
Que coadunam-me e fragmentam
Que enterram-me num céu 
Ou elevam-me ao fundo dos mares
Que agridem a minha natureza terrena
Disponivel para a violência do olhar e das carícias do mundo
E de ser divino transformam-me em um ser social
Embora não sociável
Não sou eu

Esse registro autoral ou plagiado
De quem sou
Como sou
E do que sou
Que apresenta-se como o agente
E não como personagem de um processo
Enredado de tramas
Às vezes trágicas ou cômicas
Tantas outras épicas e dramáticas
E umas poucas românticas entre algumas irônicas
Não sou eu

Eu sou um equipamento que demanda técnica
Compõe-me um conteúdo distanciado do meu respectivo suporte
Que os gestos denunciam
Que forças contrárias impelem a dissimular  
E que constantemente vinculam e apartam-me
Da minha origem e do meu fim
Nunca estou no momento em que me doo
Não sou um fragmento fixo
Apenas sutilmente toca-me o universo exterior

Eu sou dia e sou noite
Sou a batalha entre Hórus e Seth
Em constante e necessário conflito
Eu sou em todo começo uma perda
E em todo fim um ganho
Obtenho de cada fim um reverso
Uma nova chance para melhor registro
Adormeço sob a ação da luz
Acordo sempre que me toca a escuridão
Nunca no mesmo lugar onde se deu o antes
Meu passar não é cronológico
Não sou desse tempo 
Não pertenço a época 
Não me contam as datas
Não sou dessa era
Espero a chegada do homem com o cântaro
Anseio pela água que ele traz
E que a morte e a vida me dera

Mas também sou folha
Se o vento me leva
Eu me deixo ir
Não sofro ao desgarrar-me 
Algumas das minhas flores
Roubam-me o meu primeiro lugar
Sou semente impregnada de chão
Mas sei voar
Morro para continuar a viver
Emprego-me em ser
Sou planta inteira
Minha seiva em mim trafega
Mesmo ao ser folha não me nego a ser raiz
E os meus eus fluem como brotos de planta seca
Que algumas vezes se dispõem a florescer 
Em outras renuncia a demonstração do que em si guarda
E também sou 
No orvalho caído 
O pranto da folha que o vento balança
Mas não leva

Quem eu sou as palavras negam 
O meu obvio vela
Não há uma verdade em mim
Quem eu sou custa toda a minha essência
Não há lógica nos meus traços
Sou o resto no que se vê dos meus vestígios perdidos
A encarnação em um toque ausente
A vista de um olhar prenhe
A memória de um corpo 
Registrado nas pegadas
Que se apagam a cada onda
Sou a oscilação forçada 
De um ponteiro que já não marca nada
Sou o tempo da natureza que não impende á eternidade

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