domingo, 15 de janeiro de 2017

O Apanhador...

(Fotógrafo: Sergey Anashkevych - Caters - Vista em: www.google.com/image)


Meu o viço murchou
E a beleza daquela hora
Deixou-se apanhar
O seu apanhador
Desfez-lhe os laços
Apreciei seu desfazer
Por mais doloroso que o fosse
Aqueles laços me desfizeram antes
Vingou-me o apanhador

Na demora do seu time

Jogou-me no vento
Para sarar a chaga
Que me fechou para o resto do mundo
Lavei-me em salmoras
Purifiquei as feridas
Que tardaram... Mesmo assim... A cicatrizar

Ao roubar-me a beleza daquela hora

Acomodou-me nas nuvens
Que se acumula em torno do grande jardim
Em que se abre em janelas múltiplas
Lugar onde se perde a noção
Onde nada parece tão ruim...
Lugar de onde se alcança restos
De realidades e sonhos

A nudez dos sentidos

Fez o coração se acostumar
A ter apenas a vista da paisagem
Fe-lo crer que a seca não o alcançaria
Que a poeira não o inundaria ali tão longe
Não irisaria mais o seu sangue
A esperança irizou-me de vermelho outra vez

Dei-me a lembrança

De quando tudo estava prestes a naufragar
A se entregar à inexistência
Revi os sinais e os primeiros sintomas
Da ferida aberta a sangrar
De como o sangue derramado
Cegou-me os olhos e o espírito

(Res)senti aquela dor tantas vezes

Que pareceu não ter fim
Fui deixada só após ser dilacerada
Sobrevivi... Mas...
Não sobrou nada intacto
Nem a vontade de esquecimento

A tempestade que provocou no meu mundo

Arrancou-me do pó
Fez-me perceber que o oásis era ilusório
Levou-me para fora de qualquer alcance

Tornou-se insosso

Todo o perfume de terra sedenta que irradiava
De longe só via as tuas ervas e flores secando
Confesso... Esperei que fosse reflorir...
Que fosse dada uma segunda chance
De (re)colher-te
E de me recolher em ti

Assisti aos seus movimentos

Supostamente inextricáveis
No entanto... Tão óbvios
(Per)Corre espaços vazios
Isentos do cio natural que une tudo
Põe tudo em estado de ruína
Por onde passa
Não constroe nada
Que os faça valer como pena

No fim e a distância

O branco da tua superfície
Se mostrou ocre...
E só o carmesim da minha falta de recato
E o azul da tua falta de sangue
Não ressumbram-se púrpura
A cor que se prometeu a mim...

O desejo que senti borrou minha percepção

E pôs em ti tanto medo
Então despedi-me sabendo que o ermo
Não será mais o mesmo
Nem o mar... Nem o rio...
Que minha voz secreta entoará outros cantos
Que não há retorno para caminho já percorrido
Que o meu amanhecer e entardecer
Será assistido por outras paisagens




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